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Política Brasil

Luíza Erundina: o privilégio de ter Freire como seu secretário de Educação

Nomeado secretário, não tardou para que Paulo Freire empreendesse seus esforços na organização da Pasta, visto que assumia após um governo autoritário de quatro anos imposto pelo prefeito anterior, Jânio Quadros.

20/09/2021 12h54
Por: João Luis Gomes Fausto Fonte: Os Guedes - Nonato Guedes
Créditos: Reprodução
Créditos: Reprodução

O pedagogo Paulo Freire, Patrono da Educação no Brasil, cujo centenário transcorreu ontem, foi secretário de Educação da Prefeitura de São Paulo na gestão da paraibana Luíza Erundina, que havia sido eleita em 1989 pelo Partido dos Trabalhadores. Num depoimento em que traduziu todo o seu respeito pela trajetória humanista de Paulo Freire, Luíza Erundina, que continua deputada federal, agora pelo PSOL-SP, brincou com o fato de ter recebido uma reprimenda do PT, à época, por ter feito o convite a Paulo Freire sem consultar a legenda. “Será que eu preciso consultar o partido para convidar Paulo Freire para ser secretário de Educação? Eu acho que não, né?”, registrou a paraibana em discurso na Comissão de Educação da Câmara Federal. Criador de método revolucionário para alfabetização de adultos, Paulo Freire ainda hoje é reverenciado em diversas partes do mundo, mas sofre restrições do governo de Jair Bolsonaro, por suas ideias socializantes. Ter Paulo Freire no comando da Secretaria de Educação foi um privilégio para a ex-petista.

 

Luíza Erundina contou que conheceu o educador Paulo Freire quando ele foi convidado para ser patrono e ela paraninfa de uma turma da faculdade de Serviço Social em São Paulo. “A formatura não se deu na universidade, pois convidaram a mim e Paulo Freire e na época éramos considerados subversivos, perigosos”, relatou a deputada, definindo que Paulo Freire “era uma ideia, algo maior do que ele como pessoa humana”. Conforme a deputada, era esperado que Paulo Freire faria um discurso crítico, ressentido, depois de 16 anos de exílio durante a ditadura militar. “E a primeira impressão que tivemos dele é que seu discurso era um discurso amoroso. Ele não falou da ditadura, do exílio, do sofrimento com sua família. Ele falou da alegria de voltar para a sua terra, seu povo”, lembrou Erundina, acrescentando que depois daquele momento eles nunca mais se separaram.

 

Quando foi convidado para ser secretário de Educação de São Paulo, Paulo Freire disse a Erundina que pensava que nunca mais seria convidado a exercer um cargo público. E pontuou que se recusasse o convite para ser secretário da Educação de São Paulo estaria sendo incoerente, por tudo que defendeu, pelo que ele continuava a lutar. Apesar da reprimenda do PT a Erundina por não ter sido consultado sobre a escolha de Freire, a ressalva era injustificável. Além dos méritos sobejos do grande educador, ele havia sido membro fundador do Partido dos Trabalhadores, compondo a comissão de educação do partido. Em livro de 2001, Moacir Godotti e Carlos Alberto Torres registraram que Freire constituía-se em verdadeiro mito vivo da pedagogia crítica e era, portanto, símbolo da mudança educativa que o PT propunha para a população de São Paulo.

 

– Ademais, como educador, que viera de um exílio de mais de quinze anos, encontrava-se em São Paulo, tendo reaprendido o Brasil após regressar e viajar incessantemente, dando palestras, ouvindo o professor, o dirigente sindical e político, o camponês, a mulher trabalhadora, o trabalhador industrial, o morador da favela, o “Gramsci popular”, como ele disse a Carlos Alberto Torres. Paulo Freire chegou a ser superintendente do Serviço Social da Indústria – SESI-PE e avaliava que ali teve oportunidade de experimentar um novo aprendizado, atuando na perspectiva de modificar o pensamento da classe dominante sobre o atendimento assistencial e assistencialista. O pedagogo pernambucano era contra a política assistencialista, mas dizia que “sabia que não poderia converter o SESI, livrá-lo de seu pecado original”, contudo, se empenhava em fazer uma escola democrática, estimulando a curiosidade crítica dos educandos de forma “que não apelasse para a memorização mecânica dos conteúdos transferidos, mas em que o ensinar e aprender fossem partes inseparáveis de um mesmo processo, o de conhecer”.

 

Assim sendo, o pensador propunha, com as equipes com que trabalhava, realizar uma administração fundamentalmente democrática, uma gestão tanto quanto possível aberta à ingerência dos operários e suas famílias em diferentes níveis, com que fossem eles aprendendo a democracia pela prática da participação, aprendendo a democracia pela experiência da decisão, da crítica, da denúncia, do anúncio. Na década de 1960 participou do governo de Miguel Arraes em Pernambuco e em 1962 foi diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidade de Pernambuco. Durante o governo de João Goulart, trabalhou na presidência da Comissão Nacional de Cultura Popular, coordenou o Plano Nacional de Educação na gestão do então Ministro da Educação Paulo de Tarso Santos e, em janeiro de 1964, lançou o Plano Nacional de Alfabetização de Adultos.

 

Nomeado secretário, não tardou para que Paulo Freire empreendesse seus esforços na organização da Pasta, visto que assumia após um governo autoritário de quatro anos imposto pelo prefeito anterior, Jânio Quadros. O foco da secretaria nessa gestão era na hierarquia da administração central e na imposição dos diretores de escola, por meio de ações extremamente autoritários. Para pôr em prática a gestão democrática que tanto defendia, Freire passou a discutir com sua equipe e com as universidades a proposta de uma nova política de educação e, com o decorrer do tempo, organizou e administrou coletivamente esse segmento no município de São Paulo. Seu lema era o de que se fazia necessário “mudar a cara da escola”, mas era fundamental que a escola quisesse mudar a sua cara e, por isso, precisava ser respeitada, consultada, fazendo-se sujeito da sua própria história. Permaneceu dois anos e dois meses à frente da secretaria de Educação, deixando um legado que poderia ter sido transplantado para todo o Brasil não fossem os grilhões da ditadura militar que sufocou o país por 21 anos e que ainda eram muito presentes na história da identidade nacional.

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